De olho nelas: a estratégia da Uber para aumentar fatia de mulheres em um mercado ainda dominado por eles
Com apenas 8% de motoristas parceiras no Brasil, plataforma amplia nacionalmente o Uber Mulher e aposta em segurança, personalização da experiência e atração de novas condutoras para fortalecer sua operação
A expansão nacional do Uber Mulher representa mais do que o lançamento de uma nova funcionalidade no aplicativo. Por trás da possibilidade de passageiras priorizarem viagens com motoristas mulheres está uma estratégia que busca responder a dois desafios históricos da plataforma: ampliar a sensação de segurança das usuárias e aumentar a participação feminina em um mercado onde elas ainda representam uma pequena parcela dos condutores.
A partir desta semana, o recurso passou a estar disponível também no Rio Grande do Sul, encerrando uma fase de testes iniciada em cidades e capitais selecionadas. A funcionalidade permite que mulheres adultas, pessoas não binárias e adolescentes cadastrados na modalidade Uber Teens priorizem viagens realizadas por motoristas mulheres, seja em corridas imediatas, viagens agendadas ou por meio de uma preferência permanente configurada no aplicativo. A disponibilidade, entretanto, depende da quantidade de motoristas parceiras em cada município.
O ganha-ganha em ter mais mulheres motoristas
Embora o lançamento tenha sido apresentado como uma iniciativa voltada à segurança, ele também dialoga diretamente com um desafio estrutural da própria Uber. Hoje, as mulheres representam apenas 8% da base de motoristas parceiros da plataforma no Brasil. Ao mesmo tempo, esse contingente cresceu cerca de 160% nos últimos anos, movimento que a empresa pretende acelerar ao oferecer às condutoras a possibilidade de atender prioritariamente passageiras mulheres.
Na prática, a empresa cria um ciclo que pretende beneficiar os dois lados da plataforma. Passageiras passam a contar com uma opção adicional de escolha, enquanto motoristas encontram um ambiente que pode transmitir maior sensação de conforto e previsibilidade durante as viagens. Para a Uber, quanto maior o número de mulheres dirigindo, maior também será a oferta da modalidade e, consequentemente, sua atratividade para novas usuárias.
Segurança: fator decisivo de escolha
A estratégia acompanha uma mudança de comportamento observada no mercado de mobilidade. Estudos encomendados pela própria Uber mostram que a segurança é o principal fator considerado pelas mulheres na escolha de um serviço de transporte por aplicativo. Segundo levantamento da Oxford Economics, 73% das usuárias afirmam priorizar recursos relacionados à segurança ao decidir qual serviço utilizar. O estudo também aponta que a ampliação do acesso ao transporte por aplicativo pode favorecer a participação feminina no mercado de trabalho ao reduzir barreiras de deslocamento.
Nos últimos anos, a empresa vem ampliando investimentos em recursos voltados à segurança, como compartilhamento de rota em tempo real, gravação de áudio durante as viagens, verificação por código PIN, monitoramento por GPS e canais de atendimento emergencial. O Uber Mulher passa a integrar esse conjunto de iniciativas, mas com uma característica diferente: pela primeira vez, a plataforma utiliza o perfil do motorista como parte da experiência oferecida à usuária.
Desafios de eficiência
O funcionamento da ferramenta foi desenhado para equilibrar a preferência da passageira com a disponibilidade operacional da plataforma. Caso não exista uma motorista parceira próxima ou o tempo estimado de espera seja elevado, o aplicativo oferece a opção de continuar aguardando ou direcionar automaticamente a corrida para o motorista disponível mais próximo. Dessa forma, a empresa procura preservar a eficiência da operação sem comprometer a proposta do novo recurso.
No caso brasileiro, o desafio permanece relevante. Mesmo com o crescimento registrado nos últimos anos, a presença feminina entre os motoristas ainda está distante da participação masculina. Para a Uber, ampliar esse contingente significa não apenas aumentar a oferta de viagens, mas também tornar a plataforma mais atrativa para um público que historicamente demonstra maior preocupação com segurança durante seus deslocamentos.