Os motivos do desamor de Trump pelo PIX
Anna França, jornalista do InfoMoney, matou a charada. Em reportagem publicada no final de semana em um dos maiores sites de economia e política do Brasil ela apresenta uma entrevista com Rafael Nakamoto, executivo de private equity com participação em negócios como Neurotech, Boa Vista Serviços e Conductor, revelando um hipotético valor de mercado para o PIX. Se fosse uma empresa, afirma a matéria com base nos cálculos de Nakamoto, a “PIX S.A” valeria entre R$ 601 bilhões e R$ 1,8 trilhão.
Seria a maior empresa brasileira atuando no mercado, certamente uma das maiores do mundo.
Maior do que a Petrobras, que vale entre R$ 573 bilhões e do que a mineradora Vale, que poderia ser comprada “no cash” por cerca de R$ 364 bilhões — também com dados disponíveis na reportagem de Anna França.
Traduzindo: Donald Trump desama o PIX porque ele vale muito — e nada disso gera riqueza ou valor para os americanos.
Maior do que tudo que o Brasil produz
Segundo o Banco Central brasileiro, desenvolvedor do sistema de pagamentos instantâneos que chamamos de PIX, a modalidade de transferência bancária movimentou R$ 35,4 trilhões em 2025 — quase três vezes mais do que o PIB do Brasil no mesmo período, que foi de R$ 12,7 trilhões. Ou seja, para cada um real de produto gerado no país, três foram pagos por PIX — além de tudo que foi pago por outros meios de pagamento, dinheiro vivo, cheques — sim, eles ainda existem —, transferências bancárias de outras espécies, cartões de débito e crédito.
E é aqui que mora a real irritação de Trump.
Com o PIX, esses R$ 35,4 trilhões deixaram de circular em outros meios de pagamento — especialmente os cartões de débito, que perdem de lavada para o PIX na preferência dos brasileiros em transações à vista. É rápido e de graça para pessoas físicas, o que facilita a vida de quem já evitava sair à rua com dinheiro vivo no bolso, mas sente-se literalmente pelado se esquece o celular. O PIX ainda lidera de longe a preferência dos lojistas que recebem por qualquer mercadoria vendida: cai na hora e não tem taxa para operadora do cartão.
Falando em cartão, está aí o maior desamor de Trump pelo PIX. As principais operadoras de cartão de crédito e débito em atividade no país são segmentos nacionais de empresas americanas. São elas que estão amargando faturamentos muito menores mês a mês sem as comissões que o PIX não cobra. Para se ter uma ideia, as taxas mais aplicadas ao mercado brasileiro variam entre 0,75% a 1,99% por transação de débito efetuada — além da liberação do recurso que, em geral, acontece somente no dia seguinte à confirmação da transação.
Se todo o volume pago por PIX fosse convertido para pagamentos por débito, as operadoras teriam faturado entre R$ 265,5 bilhões e R$ 704,4 bilhões somente em 2025.
A “supertarifa” que tem o PIX como pano de fundo
Há duas semanas, o governo norte-americano anunciou, em conclusão de um relatório sobre suportas práticas comerciais desfavoráveis aos EUA por parte do Brasil, que vai aplicar um novo tarifaço às exportações brasileiras para a terra do Tio Sam. A nova supertarifa chegará a 25%, o que põe em alerta o setor produtivo nacional diante da inviabilidade comercial de alguns gêneros exportados.
O próprio relatório que serviu de base ao novo tarifaço, no entanto, contém excessões. Café e suco de laranja, dois produtos especialmente valorizados nos EUA e que tem no Brasil um importante fornecedor, estão de fora da nova alíquota.
Ou seja: Trump “desama” o PIX porque ele está retirando lucro das grandes empresas americanas que operaram meios de pagamento no Brasil e, para ele, isso gera uma concorrência comercial desleal. O novo tarifaço, na ótica da Casa Branca, não é exatamente uma punição: está mais para um grande bode na sala para que Trump tenha com o que barganhar nessa relação.